A vida mambembe de um palhaço apaixonado pela arte circense.
Ao passar pelas luzes da entrada, frente a crianças de todas as idades e nem sempre novas, sob a lona colorida, é que se chega ao picadeiro. Do ponto central do circo, pode-se ver uma meia lua de expressões que variam de sorrisos ansiosos a abraços tímidos em busca de proteção. No círculo de cores e luzes, todos vão em busca de alegria. Em pouco tempo se escuta as boas vindas e, senhoras e senhores, o espetáculo vai começar! É nesse momento que os olhares percebem o palhaço, e este fita de volta a platéia curiosa. Com o rosto destacado pela maquiagem habitual e vestido de apetrechos chamativos, é conhecido como Matraca. Mas, embaixo dessa superfície estão as marcas do longo tempo dedicado a vida mambembe de Celso Stevanovich.
Seus cabelos já são grisalhos, e a mania de fazer graça marca o rosto, mas preserva o corpo e o espírito de um homem de quarenta e sete anos. O sotaque hermano não deixa despercebido de onde veio, e acrescenta à lista saudosa de quem não para em um lugar só. Apaixonado pela profissão, Stevanovich vive do e para o circo. Seguidor da tradição familiar, ele faz parte da quarta geração de circenses. Suas influências são nomes de peso como Charles Chaplin, Kiton, Jerry Lewis e Oleg Popov, mas seus verdadeiros professores foram seu tio Cepillo e seu primo Pipico, ambos palhaços musicais. Seu início se deu no antigo Circo Imperial, em seu país de origem, a Argentina, em 1979. De lá, para o mundo.
Há quinze anos, Celso pode ser encontrado no Mundo Mágico de Beto Carrero, juntamente com sua esposa e seu filho, companheiros da prática itinerante. Ele já exerceu muitas funções no espetáculo: foi trapezista; domador; animador; malabarista; equilibrista e, por fim e sempre, palhaço. “Tudo menos dono de circo”, brinca ao resumir a extensa lista. Para tanta habilidade, é preciso treinar todo dia, cerca de duas a três horas. Se a apresentação é nova, mais dedicação ainda. Muitas idéias do espetáculo são sugestões próprias, mas, humildemente, explica que “quase tudo já foi inventado, é só reciclar.”
Durante a semana, os artistas acordam tarde, almoçam, ensaiam antes ou depois do espetáculo. Mas a rotina não é feita só da labuta. A segunda feira é o dia sagrado de descanso e sempre rende um jogo de futebol ou churrasco. De acordo com Celso, uma das coisas boas de morar na estrada é que se conhece muitas pessoas e lugares. Mas nem tudo é doce, “o ruim é que é preciso viajar para ver sua família e amigos”, lamenta o artista. Com o tempo, se acostuma com as saudades e toma gosto pela prática e manias do circo.
Celso nunca entra no picadeiro se não for para se apresentar ou ensaiar e não se senta nos caixotes dando costas à arena. Sua fala arrastada carrega um vasto vocabulário de gírias próprias da arte e não resiste ao ditado: “quem bebe da lona do circo, nunca deixa de ser cirqueiro.” O palhaço bem sabe quão verdadeiras são essas palavras: “Existe uma diferença entre quem é de circo e quem gosta disso e quer ser cirqueiro. Quem é nascido em circo, o vê como sua casa e quem gosta de circo fica um pouco, mas sempre pensa na casa onde mora.”
Ao final do espetáculo, as luzes já querem se apagar e a música quer se guardar para o outro dia. A pintura da face já está borrada pelo suor, a platéia não é mais ansiosa nem tímida, mas alegre. Quando o esforço dos integrantes é reconhecido, uma salva de palmas ecoa pelo brinquedo de lona. O palhaço se emociona satisfeito pelo trabalho e não pensa em outra profissão: “Quero continuar trabalhando no picadeiro até os últimos dias de minha vida”. E completa orgulhoso: “Se não existisse o circo, eu o inventava!”
Celso Dario Unzelte é um homem de manias. Entre essas, algumas das mais conhecidas: gosta de cantar hinos dos clubes de futebol, não usa camisa verde e coleciona datas – principalmente as de jogos do seu time do coração, Corinthians. No entanto, a mais notável, que pode ser percebida em pouco tempo com o jornalista, é sua grande mania de contar histórias.
Característica familiar. Em entrevista coletiva para os alunos da Faculdade Cásper Líbero, em 19 de junho, Celso revela que seu irmão cospe toda vez que passa pelo parque Antártica, e que seu avô, são-paulino de carteirinha, gostava de contar histórias para ele durante sua infância.
Época esta em que passava a maior parte de seu tempo lendo histórias em quadrinhos: “aos cinco anos, eu tinha absoluta certeza que seria o Walt Disney do Brasil”. E bem que tentou. O menino “nerd”, como Unzelte se descreve, desenhava em todo lugar, “até atrás do sofá branco da mãe”.
Não conquistou seu legado tão esperado, mas foi por meio de sua coleção de gibis, que contou com cerca de mil, que o “louco por futebol” passou a entender sobre o esporte. “Até os nove anos de idade eu detestava futebol. Um dia caiu em minhas mãos o Manual do Zé Carioca, que contava a história do futebol, aí eu me interessei pela teoria. Na prática sempre fui muito ruim de futebol, só um bom goleiro”, diz mostrando um dedo torto, modificado após levar uma bolada.
Esse interesse por história e pelo futebol veio a lhe favorecer anos mais tarde, quando decidiu ser jornalista. Formou-se em jornalismo pelas Faculdades Integradas Alcântara Machado (FIAM), no ano de 1989, e começou sua carreira no ano seguinte, na revista Placar, a mesma que comprava para ler as letras dos hinos dos clubes. Trabalhou em outros veículos como a Quatro Rodas e até mesmo brevemente para o Notícias Populares.
Fora das redações, ele escreveu livros como Almanaque do Timão e Almanaque do Palmeiras. Ao explicar o motivo de ter feito o almanaque do “inimigo de estimação” ele brinca dizendo que só trabalhou nas derrotas. “Só trabalho por prazer”, ri. A verdade, no entanto, é outra: “brincadeiras à parte, mais do que um clube, eu gosto da história do futebol”, justifica.
Com esse clima descontraído, Celso Unzelte tocava a coletiva com seus alunos, que aproveitavam a ótima oportunidade para saber curiosidades sobre a mão final na coloração do boletim de Jornalismo Básico. Esse cargo, já há sete anos atribuído a ele, surgiu ao acaso, por um convite do colega de trabalho Carlos Costa, que também leciona na Faculdade Cásper Líbero.
Não somente durante as aulas, Unzelte foca na questão da apuração, da informação acima da opinião e formula quase que uma receita para a profissão: menos caciques, mais índios – crítica aos veículos que lançam nomes consagrados do jornalismo, mas não se importam com a qualidade da informação.
A coletiva durou cerca de uma hora e quarenta minutos e alguns alunos ainda passaram o intervalo conversando com o professor, disposto a ensiná-los através de sua experiência. Parece que tudo teve um encaixe na vida daquele menino nerd, leitor assíduo, de excelente memória, terrível no futebol, neto de são-paulino e filho de corintiano: além de um profissional apaixonado pelo jornalismo, ensina com suas histórias.
Ele teve a coragem de deixar a estabilidade da advocacia para subir nas cordas bambas do teatro. Começou fazendo o que naturalmente já faz: despertando sorrisos com seu bom humor. Passou pelo teatro, participou de vídeos independentes e agora atua em Gangbang, programa da MTV no qual interpreta um personagem muito parecido com ele mesmo. Adriano fala de teatro, TV, nonsense, originalidade e seu novo projeto.
Por que você deixou o Direito para se voltar ao teatro? Foi algo consciente na época ou aconteceu naturalmente? No último ano da faculdade eu fazia estágio em um escritório. Aquela rotina de trabalho e as pessoas com quem trabalhava me fizeram perceber que não conseguia me imaginar trabalhando em nenhuma área do direito, o que eu tentava me convencer desde o primeiro ano de faculdade, de que descobriria uma área com a qual me identificasse e teria prazer. Coincidiu de começar um curso de clown logo no início do quinto ano, o que abriu as portas do teatro para mim. Assim que me formei em Campinas tive que voltar para Jacareí e lá, através de um amigo de meus pais que tinha um grupo, comecei a ensaiar peças e conheci outras pessoas do meio teatral da cidade.
O que é mais gratificante como ator: teatro ou televisão? Como ator, acho que você se expressa de verdade no teatro. A televisão, desde o formato às exigências de anunciantes, remete muito mais a um produto/imagem do que a algo artístico. Por isso deve ser muito mais elaborada e pensada para poder ser algo de qualidade.
Você se inspira em alguém pra estimular sua criatividade? Me inspiro em diversos criadores, atores e diretores. Gosto muito de Andy Kaufman, Monty Python, Tim an Eric, Zac Galafinakis, Andy Sandbert e todo o Lonely Island, Human Giant, Will Ferrel, Jim Carrey... Como ator gosto muito também de Louis Garrel, Louis Pierr Léad, atores que fazem personagens muito próximas de suas realidades e possuem características fortes, que sempre agregam às personagens que interpretam. Pretendo estudar mais arte dramática para poder me dedicar a personagens mais complexas e que me satisfaçam mais como ator. Como surgiu a idéia do programa Gangbang? O programa surgiu da vontade de fazer um algo extremamente surtado, que vinha das idéias que todos tínhamos na época, das coisas que vínhamos assistindo e a rotina que vivemos. Os quatro atores principais são da Trintaeum Filmes e moramos juntos, além disso, existe um "elenco fixo" que sempre participa. O primeiro programa para o Portal MTV terá quase 10 minutos e será uma única história, quase um curta, só que com a linguagem nonsense, bastante auto-referência aos demais episódios, muita metalinguagem e atores interpretando a si mesmos.
O nonsense do programa foi uma escolha também sem sentido? O nonsense foi uma escolha natural, inconscientemente ligada ao mundo contemporâneo, da construção da identidade através da imagem e claro, devido às referências e coisas que vínhamos assistindo na época. Hoje, com essa atual temporada que estamos produzindo, vejo que o nonsense foi incorporado de forma orgânica na criação dos roteiros. Ou seja, ele faz sentido enquanto nonsense, os esquetes passaram a ter começo, meio e fim, não necessariamente nessa ordem, nem com a noção tradicional de ação e reação.
Nos anos 70, Monty Python fazia uma série cômica que já apresentava grande teor de nonsense e influenciou muitos outros programas, inclusive brasileiros, como Casseta e Planeta Urgente! e Tv Pirata. Você acha que o Gangbang se espelha nesse padrão e em que proporções ele é original? O Gangbang tem inspiração direta do Monty Python, programa que na época aparentava ter esgotado todas as possibilidades do formato de esquetes de humor para televisão em forma e conteúdo. Trabalhando no Comédia MTV, percebi que o Gangbang tem uma estética e processo de produção muito mais próximos do cinema do que da TV: filma-se plano por plano, diversas vezes, sempre tendo o cuidado de arrumar as luzes para a fotografia em cada cena. Sendo que, no Brasil, já que o cinema existe graças às leis de incentivo, a indústria televisiva tem um processo muito mais insano de produção, no sentido de que tudo que existe um prazo para entrega, faz com que a produção tenha que ser muito rápida. Sendo assim, o Gangbang é original na medida em que não se prende aos formatos do Brasil, e também não se limita às suas referências, já que existe um foco assumido de se buscar a sinceridade do que é dito. Todos os integrantes sempre se cobram naquilo que propõem, defendem suas idéias, mas buscam não ser presos a elas. Nos deixamos ser convencidos pelos outros quando os argumentos são coerentes.
Você acha que a originalidade é possível de que maneira? Vejo as referências como inspiração direta para a criação, o que diferencia de cópia é o fato de se apropriar das referências, torná-las parte do seu processo de criação, para então resignificá-las com suas características e forma de pensar, sempre priorizando a sinceridade daquilo que é dito, se isto é algo que te pertence. Aí, o resultado final, será uma mistura de tudo aquilo de que você gosta e se inspira de forma natural, menos pensada.
Pra você que sabe como funcionam as produções independentes, o que muda quando vê seu trabalho veiculado pela MTV? Quando vejo o programa sendo veiculado pela MTV, sei que ele terá um alcance muito maior e que poderá ser visto por muito mais pessoas, e justamente por esses motivos, teremos que, enquanto produtores independentes, encontrar meios de se adequar a um sistema e formato sem perder a identidade.
Querô - uma reportagem maldita, peça de Plínio Marcos, é bem forte e dramática, diferente do Gangbang. Você tem alguma preferência de gênero? Como público gosto de todos os gêneros. Como ator, prefiro a comédia, onde utilizo muito da minha personalidade na construção das personagens e situações que são plausíveis com minha realidade. No caso de Querô, o personagem tinha um perfil muito próximo também, mas não é algo que goste muito. Prefiro criar os textos em que atuo, ou atuar em textos que tenham sido criados por alguém que conhece minhas qualidade e limitações.
É mais difícil expor críticas com o humor? Acho o humor a melhor ferramenta para expor críticas, seja quais forem. É o único lugar onde podemos rir do quanto idiota somos, na pretensão de se criticar algo ou alguém, e através dessa brincadeira fazer surgir a crítica em si. Enquanto ator, penso que somente através do humor podemos proporcionar ao público a experiência de rirem de si mesmos através do outro e dessa experiência de troca.
Poucos canais têm espaço para produções que não geram lucro. Você acha que o fator produto limita a arte? O fator produto limita bastante a arte, e por isso vejo como um desafio a oportunidade de se educar o público para um conteúdo diferente do usual, para assim, com o tempo, possa ser um produto que atraia anunciantes (gere lucro) e tenha uma finalidade artística. Aproveitando assim, essa abertura cada vez maior da televisão para conteúdos que sejam ousados criativamente. Vide a evasão de roteiristas e atores de Hollywood para as séries de TV. O cinema está cada vez mais preocupado com o lucro, limitando assim o conteúdo dos filmes. Pensando na lógica: quanto mais caro é o filme, mais público ele precisa ter para poder obter lucro, sendo assim, quanto mais caro um filme, mais acessível ao público ele terá que ser. O mais loco é que é em Hollywood, o único lugar no mundo em que existe uma indústria de cinema onde se faz filmes independentemente da ajuda estatal - esses filmes grandes, que é gerado muito lucro, e proporciona a experimentação em projetos menores e mais ousados, que vão aos poucos sendo incorporados pelo público e com o tempo se transformam em mainstream. Parece ser um movimento cíclico.
Trintaeum Filmes GANGBANG Programette 03 Temporada 01 "Piada"
“Quando se diz acerca dos negócios do Estado: Que me importa? Deve-se contar que o Estado está perdido” Jean-Jacques Rousseau
Luís Augusto May foi um importante jornalista na época da Independência e do Império no Brasil. O lisboeta nasceu em 1782, e com 16 anos alistou-se nas forças armadas de Portugal, chegando a se tornar capitão de artilharia. Estudou em Coimbra como seminarista e fez parte do Batalhão Acadêmico, resistência à ocupação francesa no país. May foi funcionário da Secretaria da Legação Estrangeira em Londres antes de vir ao Brasil, em 1810, trabalhar como intérprete dos trabalhadores suecos da Real Fábrica de Ferro São João do Ipanema, em Sorocaba, interior de São Paulo.
Ao final do ano de 1821, o Brasil vivia um cenário político instável. As Cortes portuguesas lançavam decretos a fim de submeter o país novamente a Portugal, com a retomada do pacto colonial e retorno do príncipe regente à capital lusitana. Porém, isso já não era mais possível, pois a população que aqui vivia já havia tomado gosto pelo comércio, pela relativa liberdade e principalmente pelo poder da imprensa. É nesse fervor que, em 18 de dezembro, surge o último jornal desse mesmo ano: A Malagueta, obra de Luís Augusto May.
Tratava-se de uma publicação em primeira pessoa e direcionada ao imperador D. Pedro I. Era independente do Revérbero Constitucional Fluminense e do Grupo dos Andradas, que dominavam a imprensa carioca e funcionavam com aval do governo. Até por isso, o feito de um homem comum como Luís Augusto May é considerado muito importante para as proporções da época: conquistou 500 assinaturas na Corte, se tornando o jornal de maior circulação.
Como era de costume do jornalismo daquele período, a informação era colocada em segundo plano em detrimento das opiniões – e o despertar destas é o fator que mobilizaria a população para unir-se contra as atitudes de recolonização, e por isso a imprensa teve um papel muito importante no processo de independência. No caso da Malagueta, essas opiniões refletiam o estilo de seu realizador, “cheio de circunlóquios, de observação de duplo sentido, de falsa subserviência”, como descreve Isabel Lustosa, em seu livro Insultos impressos. Em seus textos concentravam críticas liberais ao governo, principalmente a José Bonifácio, velho conhecido dos tempos de Batalhão Acadêmico. Esse posicionamento, na maioria das vezes irônico e provocante, somado ao caráter ambicioso – “May gostava de um cargo público, de uma condecoração”, já diria Lustosa - lhe renderia algumas retaliações futuras.
Exemplo disso foi o fato que não demorou a acontecer: May teria tirado a Malagueta de circulação com o objetivo de ser nomeado a um cargo no exterior. Não obtendo sucesso, ameaçou voltar com a publicação, em oposição ao governo. Assim, se deu início à uma série de desavenças com outro jornal: O Espelho, no qual o próprio imperador escrevia sob pseudônimos. Em uma das publicações envolvidas e de possível autoria de Dom Pedro, era questionado o caráter do opositor, além de denunciar um relacionamento homossexual com o Conde das Galveias e acusá-lo de furtar documentos do Conde de Funchal. Não bastando, o violento ataque ainda descrevia, em linguagem chula, as características físicas do mesmo. O caso não acabaria por aí. Ao revidar com a Malagueta nº2 (em 5 de junho 1822), May foi espancado em sua própria casa, no dia seguinte à publicação.
Essa não seria a última represália sofrida por ele. Em agosto de 1829, sofreu outra agressão quando estava andando na rua, acompanhado de Cunha Matos. Nessa ocasião, Luís Augusto May era deputado, cargo que exerceu duas vezes em sua vida: em 1826 e em 1829. A última malagueta circulou em 31 de março de 1832 e, após as repressões sofridas por seu realizador, não foi mais a mesma, sua visão política estava mais branda. Luís Augusto May faleceu com 68 anos, em 1850, no Rio de Janeiro.
*Trabalho de História da Comunicação - Perfil de personagem da imprensa
Nunca achei que fosse ser tão difícil falar de mim como alvo, fazer um auto perfil. Eis que me surge o primeiro trabalho da faculdade. Protagonizando.
Já era quase noite na cidade de São Paulo, numa tarde do verão de 1990, quando nasceu Amanda Rezende Nogueira. Segunda filha entre quatro irmãos, alguma posição em uma família de treze tios, cada um com, em média, dois filhos – o que lhe dá uma margem de 38 primos próximos, contando alguns de segundo e terceiro grau. Seria um fato corriqueiro para famílias desse porte, mas a futura jornalista garante que, apesar de sua avó a chamar erroneamente pelo nome de sua mãe, de uma tia e de uma prima antes de acertar o seu, não se sente menos especial ou querida. “É incrível como em uma situação como essa, cada um de nós consegue ser único, ter um diferencial e se sentir querido. Gosto de olhar um retrato que tenho com minhas primas: uma ruiva, uma morena, e outra de cabelo enroladinho. Mostra bem o que é a minha família”. Alguns anos depois, viriam ainda mais dois pequenos irmãos, “motivo de maior felicidade e orgulho que posso sentir, e causa de algumas tardes perdidas como babá”, declara toda boba.
Foi em meio a tantas pessoas que Amanda cresceu, na região do Vale do Paraíba, interior do estado de São Paulo. Gosta das regalias das cidades pequenas, apesar de São José dos Campos, para onde volta da capital aos finais de semana, já ser grande o suficiente para algum estresse no trânsito. “Não é nada como São Paulo, mas [São José dos Campos] já está bem grande: tem o INPE, o ITA, a Embraer, o que acabou atraindo muita gente. Ainda assim, conserva um jeito de interior, um ar mais puro, pessoas mais amigáveis, parques e praças próximos de casa... Posso fazer tudo tranquilamente.”
Fotografia e literatura sempre fizeram parte de sua vida, mas foi durante a adolescência que a menina tomou gosto por isso. “Ganhei uma câmera fotográfica do meu pai e tirava foto de qualquer coisa, levava nos passeios de escola e em festas de família. Passei a gostar muito do hobbie. Hoje tenho um portfólio que tento atualizar na medida em que posso.” Começou lendo livros infanto-juvenis como “Alice no País das Maravilhas” e “Harry Potter” e não parou mais. Quando criança chegou a escrever um livro para concorrer a um concurso na escola: “terrível”, confessa com vergonha. Entre seus autores prediletos encontram-se João Guimarães Rosa, Machado de Assis e Hunter Thompson.
A música era algo além: “Meu pai tocava violão e eu gostava de acompanhá-lo cantando. Tínhamos até uma música nossa, ‘Leãozinho’, de Caetano Veloso, e antes que façam qualquer comentário engraçadinho, quero esclarecer que sou mais velha que a Mallu Magalhães”, conta fazendo graça sobre o fato de a jovem cantora compartilhar da mesma canção com o pai. Foi tomando gosto pela música que, aos 12 anos, entrou no conservatório musical para aprender a tocar violino, mas logo parou para se dedicar aos estudos para o vestibular. “Entrar numa faculdade foi o maior desafio pelo qual passei, travava em toda prova”. Mal ela sabia que aquela vida tranqüila logo acabaria com sua ida para São Paulo.
No final do ano de 2009, prestes a completar 20 anos passados daquele primeiro verão, Amanda passou no vestibular para Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Mudou-se para São Paulo e começou uma nova fase de sua vida, buscando se tornar jornalista em uma cidade tão conturbada e culturalmente rica. “Minha relação com São Paulo é ambígua, amo ter a possibilidade de fazer qualquer coisa, a qualquer hora que eu queira. Gosto dessa diversidade de pessoas, de programas, de acontecimentos. Sem dúvida aqui é o lugar ideal para quem é da área de comunicação. Acontece que preciso normalizar muita coisa para viver com a consciência no lugar, é preciso normalizar a fome, a desigualdade, a violência, e de uma forma muito mais intensa do que em outros lugares. Morar aqui é sensacional e ao mesmo tempo muito triste.”
Ao ser indagada sobre a escolha da profissão, Amanda, ainda com a visão ignorante de caloura, justificou dizendo que acha a profissão “fascinante, daquelas que, se bem exercida, tem um retorno muito gratificante, permite o contato direto com a sociedade e a efetiva interferência nela.”